A indústria mundial atravessa uma transformação profunda, que combina avanços tecnológicos, mudanças nas cadeias produtivas e uma nova configuração das relações entre os países. Inteligência artificial, transição energética, disputa por mercados, segurança de suprimentos e reorganização geopolítica já fazem parte das decisões que as empresas precisam tomar todos os dias.
Esses foram alguns dos temas centrais do 11º Congresso Brasileiro da Indústria de Máquinas e Equipamentos, realizado pela ABIMAQ e pelo SINDIMAQ. O Congresso evidenciou que essas questões estão diretamente relacionadas à capacidade do Brasil de elevar sua produtividade, ampliar sua competitividade e definir o espaço que pretende ocupar na economia mundial.
Para o Brasil, esse cenário representa um desafio, mas também abre oportunidades. Temos recursos naturais estratégicos, capacidade de produção de alimentos e energia, um mercado interno relevante e uma indústria diversificada. Esses ativos, entretanto, não garantem desenvolvimento por si só. É necessário criar condições para que o investimento produtivo aconteça, para que as empresas modernizem suas estruturas e para que novas tecnologias sejam incorporadas de forma competitiva.
A inteligência artificial é um bom exemplo dessa transformação. Na indústria de máquinas e equipamentos, seus efeitos aparecem na automação, no desenvolvimento de máquinas mais inteligentes, na integração de dados aos processos produtivos e na manutenção preditiva.
A questão, portanto, deixou de ser se a indústria brasileira terá contato com essas tecnologias. O ponto central é saber com que velocidade e qualidade conseguiremos incorporá-las.
Isso exige tecnologia, mas também pessoas qualificadas, capacidade de gestão, disponibilidade de financiamento e segurança para investir. Exige, sobretudo, um ambiente econômico capaz de estimular decisões de longo prazo.
O elevado custo do capital, a complexidade tributária, as dificuldades de financiamento, as deficiências de infraestrutura e a insegurança jurídica e regulatória reduzem a capacidade das empresas de investir, inovar e competir.
Para a indústria de máquinas e equipamentos, essa questão é ainda mais relevante. Nosso setor está na base de praticamente todas as cadeias produtivas. Quando uma indústria moderniza uma fábrica, automatiza uma linha de produção, reduz desperdícios ou amplia sua capacidade, existem máquinas, equipamentos, tecnologia e soluções de engenharia por trás dessa transformação.
Fortalecer a indústria de máquinas e equipamentos é, portanto, ampliar a capacidade de modernização de toda a economia. Mais investimento produtivo significa maior demanda por bens de capital, maior incorporação de tecnologia e melhores condições para elevar a produtividade do país.
Foi a partir dessa visão que a ABIMAQ apresentou, durante o Congresso, sua proposta aos presidenciáveis, intitulada “Estabilidade e Competitividade: os fundamentos de um novo ciclo de desenvolvimento”.
O documento organiza as propostas da entidade em quatro grandes eixos: estabilidade macroeconômica; melhoria do ambiente de negócios e competitividade sistêmica; educação, capital humano e formação para o desenvolvimento; e investimento, modernização e inovação.
Mais do que uma agenda setorial, a Carta apresenta a visão da ABIMAQ sobre as condições consideradas necessárias para sustentar um ciclo de crescimento de longo prazo. Não haverá aumento consistente de produtividade sem pessoas qualificadas. Não haverá inovação em escala sem investimento. E dificilmente haverá investimento produtivo de longo prazo sem estabilidade econômica, previsibilidade e segurança jurídica.
A infraestrutura também ocupa papel central nessa agenda. Infraestrutura insuficiente eleva os custos de produção e transporte, reduz a eficiência das empresas e limita a competitividade da produção brasileira.
Ao mesmo tempo, as transformações internacionais criam novas possibilidades. A disputa entre grandes potências, a reorganização das cadeias produtivas e a busca por segurança energética, alimentar, mineral e tecnológica ampliaram a importância estratégica da capacidade produtiva dos países.
O Brasil reúne atributos importantes nesse novo cenário. Dispõe de recursos naturais, matriz energética diversificada, mercado interno e uma base industrial com conhecimento e capacidade tecnológica. Esses fatores podem contribuir para ampliar a participação do país nas cadeias globais, atrair investimentos e conquistar novos mercados.
Mas essas oportunidades não são automáticas. A inserção internacional do Brasil precisa caminhar junto com a construção de condições de competitividade para quem produz e investe no país.
Na visão apresentada pela ABIMAQ, uma política industrial consistente precisa estabelecer prioridades, metas e mecanismos de acompanhamento de resultados, integrando financiamento, inovação, formação profissional, infraestrutura e desenvolvimento produtivo. Governança, avaliação e continuidade são fundamentais para que essas iniciativas tenham horizonte de longo prazo.
O Brasil possui condições para ocupar uma posição relevante no próximo ciclo da economia mundial. Temos recursos estratégicos, empresas com conhecimento e capacidade tecnológica e uma indústria de máquinas e equipamentos capaz de desenvolver soluções para diferentes setores da economia.
O desafio é transformar essas capacidades em uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo, com continuidade e previsibilidade, que crie condições para que investir em produção, modernização e tecnologia seja uma decisão economicamente racional.
O mundo já está mudando. Para a indústria brasileira, a questão não é apenas acompanhar essa transformação, mas estar preparada para participar dela.
Precisamos definir que indústria queremos construir para o futuro — e criar, desde agora, as condições para que ela possa competir, investir e crescer.
* Gino Paulucci Jr. – Engenheiro, empresário e presidente do Conselho de Administração da ABIMAQ
