Alta da produção e de preços agrícolas elevaram a demanda, mas faltam peças; com esperas de até 6 meses, setor faturou 80% mais em 2021
O produtor rural que quiser comprar uma máquina ou um implemento agrícola terá que entrar numa fila de espera pelo equipamento, que pode durar meses, e pagar mais caro. A demanda por maquinários mais modernos foi puxada pelo aumento dos Máquinas e Equipamentos (ABIMAQ) registrou um crescimento de 40% nas vendas no ano passado. O crescimento nominal do faturamento do setor foi de 81%.
O produtor rural Bruno Silvano Correa, que produz soja, milho e leite em Bela Vista de Goiás, conta que comprou duas máquinas agrícolas, uma colheitadeira em 2020 e um trator no ano passado, e precisou esperar seis meses para receber os dois equipamentos. “Todas as revendas pedem um prazo grande, por isso não é possível fazer nenhum planejamento”, conta. Segundo ele, hoje, até quem compra um simples pneu de trator tem que esperar meses.
Bruno Silvano informa que conseguiu manter o mesmo preço das máquinas do dia do pedido. Pouco depois, os valores já haviam subido entre 30% e 35%, resultando numa valorização de cerca de R$ 500 mil. “Maquinário virou investimento. Quem comprar uma máquina hoje, já terá que pagar o preço do dia da entrega”, diz o produtor. A informação foi confirmada pela reportagem com vendedores do ramo. O resultado, segundo Bruno, é que já tem muita gente vendendo máquinas seminovas para lucrar em cima.
Considerando as vendas de todos os produtos, incluindo peças, o crescimento geral foi de 72%. Para ele, este desempenho é resultado do maior faturamento no campo, com a valorização das commodities e aumento das exportações. “Mais capitalizado, o produtor passou a investir mais em mecanização e tecnologia para aumentar sua produtividade”, destaca.
O presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas da Abimaq, que reúne os levantamentos de 500 empresas do ramo, Pedro Estevão, lembra que o crescimento das vendas foi de 17% em 2020 e de 40% em 2021. Considerando a inflação, o incremento nominal do faturamento chegou a 81%. “Tivemos uma ampliação da carteira e um recorde histórico de vendas. Mesmo assim, entregamos muito mais do que imaginávamos”, garante.
Para conseguir atender a demanda, o número de trabalhadores nas fábricas de máquinas e implementos subiu de 45 mil para 60 mil e foram criados mais turnos de trabalho. Mas Pedro Estevão lembra que este aumento da demanda chegou num momento de falta de componentes, como aço, pneus e fabricantes mostraram que o tempo médio de entrega chegou a 80 dias em 2021, contra uma média habitual de 50 dias. Os maiores atrasos são registrados para máquina que utilizam semicondutores. “Mas o pior período já passou e a média já caiu para 68 dias”, destaca. Para Marco Elísio, da Planalto, o crescimento das vendas teria sido maior se as fábricas não tivessem tido problemas com sua cadeia de suprimento de peças.
Na Rimaq Máquinas e Implementos Agrícolas, a procura cresceu 28% em 2021. O gerente comercial da empresa, Elton Murta, conta que as fábricas não enfrentam só a falta de componentes eletrônicos, mas também de peças feitas de borracha e rolamentos, ainda reflexo da pandemia. A empresa comercializa mais implementos para plantio e pulverização e o atraso para entrega dos pedidos tem sido de 90 dias. “O resultado foi uma elevação dos preços de alguns itens em mais de 200% de 2020 para 2021”, destaca.
A procura continua e as vendas poderiam estar ainda melhores se houvesse produto para entrega. Elton informa que alguns itens já não estão mais disponíveis para entrega em 2022.
Produtores chegam a oferecer valor maior
Vendedores de máquinas agrícolas confirmaram para a reportagem que alguns produtores rurais chegam a oferecer valores maiores que os cobrados para passarem seus pedidos na frente das filas de espera. Isso teria ajudado a inflacionar ainda mais os preços dos equipamentos. A informação também foi confirmada por lojistas do ramo e pelo coordenador institucional do Instituto para Fortalecimento da Agropecuária de Goiás (Ifag), Leonardo Machado.
Segundo ele, há muitos relatos de produtores sobre esta dificuldade para comprar as máquinas e equipamentos, pois a tendência é de agregação de mais tecnologia à produção. Para Leonardo, a primeira razão para o problema foi a existência de uma demanda represada no ano 2020, quando as fábricas ficaram paradas, que acabou sendo empurrada para 2022. “Mas isso aconteceu num momento de falta de muitos componentes, como o aço”, ressalta. Para piorar, a alta cotação do dólar também acabou estimulando as mais motivado a realizar investimentos para agregar mais tecnologia na propriedade.
A safra goiana de grãos chegou a quase R$ 14 milhões de toneladas em 2021. Além disso, houve uma significativa alta nos preços dos produtos agrícolas. Um bom exemplo é o da saca de soja, cujo preço médio subiu de R$ 111 em 2020 para R$ 158,20 no ano passado. O preço médio da saca de milho também subiu de R$ 47,77 para R$ 77,13. As exportações também continuaram crescendo com a cotação do dólar em alta.
Preços
“Os produtores também reclamam que os preços das máquinas subiram bastante no ano passado”, completa o coordenador do Ifag. Mas o presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas da ABIMAQ, Pedro Estevão, afirma que os preços subiram apenas por causa do repasse da alta de custos, que foi de 25% em média. “Aumentamos até menos que isso, entre 23% e 24%”, destaca.
Ele garante que os reajustes de preços não foram provocados pelo aumento da demanda, mas apenas pela falta de materiais no mercado, principalmente o equipamentos foi a melhor rentabilidade do produtor, principalmente com as culturas de exportação, como soja, milho, café, algodão e carnes. A expectativa da ABIMAQ é que a demanda por máquinas e equipamentos agrícolas cresça apenas 5% este ano. “Este ano, os prazos de entrega devem ser regularizados, mas alguns modelos mais específicos ainda podem ter mais problemas que outros”, prevê.
Fonte: O Popular Goiânia
