A recente decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de invalidar as tarifas unilaterais impostas pela administração Trump foi recebida pelo setor industrial brasileiro com um misto de alívio e ceticismo. Embora a medida interrompa um ciclo de instabilidade, ela não garante, por si só, que o mercado americano recuperará a previsibilidade de outrora. Na realidade, o que a decisão promove é um estancamento na perda de competitividade: com tarifas que chegaram a 50%, as máquinas brasileiras haviam se tornado proibitivas no mercado norte-americano, resultando em uma queda acentuada no volume de exportação, que recuou de 32% para 22% do total exportado no último ciclo.
No entanto, o fim dessas barreiras imediatas não dissipa a névoa de imprevisibilidade que se tornou o principal efeito colateral dessa disputa. O governo dos EUA já sinalizou que buscará caminhos alternativos, como a Seção 301, para revestir o protecionismo com novas roupagens técnicas. Tal cenário mantém o setor em uma posição desconfortável, uma vez que a ameaça de taxas reinstituídas subitamente impede a celebração de contratos de longo prazo e afasta investimentos planejados.
Somado a essa instabilidade jurídica, não podemos perder de vista o dano colateral já consolidado no faturamento das empresas brasileiras, que enfrentaram uma queda líquida de 9,1% nas exportações para os EUA. Esse dado evidencia que a crise não se encerra com uma sentença judicial; ela exige uma percepção clara de que o desafio é político e estrutural, e não apenas jurídico. Para o setor de máquinas e equipamentos, a queda das tarifas é apenas o desfecho de um capítulo, e não a conclusão do livro.
Uma análise mais aprofundada deixa claro que a indústria nacional necessita de mecanismos internos que compensem o "Custo Brasil". Afinal, de nada adianta a remoção de barreiras externas se o fabricante brasileiro segue sobrecarregado por gargalos logísticos e um custo de capital que inibe a inovação. É imperativo que o país avance em reformas que garantam isonomia competitiva frente aos players globais.
Apesar desses desafios, é fundamental reconhecer a robustez da nossa engenharia e a qualidade intrínseca das máquinas brasileiras — atributos que, historicamente, superaram barreiras muito além das impostas pelo protecionismo. A decisão da Suprema Corte não é o destino final, mas uma abertura estratégica que nos permite retomar o fôlego e reafirmar nossa presença global. Seguimos atentos, convertendo prudência em estratégia: com a resiliência de nossos associados e uma atuação diplomática incisiva, temos plenas condições de reconquistar o terreno perdido e provar que a indústria de bens de capital do Brasil é um pilar insubstituível no comércio internacional.
*Gino Paulucci Jr. é engenheiro, empresário e presidente do Conselho de Administração da ABIMAQ.
