Os dados de março de 2026 mostraram melhora pontual nos investimentos nacionais em máquinas e equipamentos, após um início de ano bastante fraco. O consumo aparente cresceu 1,2% na comparação interanual, atingindo R$ 35,3 bilhões, interrompendo a sequência de quedas observada desde outubro de 2025. Ainda assim, o primeiro trimestre acumulou retração de 11,4% na aquisição de máquinas e equipamentos, deixando claro que a recuperação no mês não altera, por ora, a trajetória de queda.
Mais relevante do que o crescimento em si foi a composição do consumo aparente do mês. Na comparação interanual, o crescimento registrado (+1,2%) foi integralmente puxado pelas importações (+3,7%), enquanto a produção doméstica seguiu em queda (-0,9%), ou seja, a leve retomada da demanda por máquinas não foi capturada pela indústria nacional.
Receita liquida de vendas: mudança na composição da demanda
O comportamento do primeiro trimestre indica uma transição importante. A forte contração observada no início do ano deu lugar, em março, a uma melhora na margem — a receita líquida cresceu 4,8% frente a fevereiro (feitos os ajustes sazonais), alcançando R$ 23,8 bilhões. No entanto, a queda de 8,6% no trimestre frente a 2025 e de 13,8% em relação ao último trimestre de 2025 evidencia que o setor ainda opera em um nível significativamente mais baixo de atividade.
Dados de 2026 mostram que a demanda mais sensível ao crédito — como a de máquinas agrícolas e equipamentos para a indústria de transformação — seguem deprimida, refletindo juros elevados e maior incerteza. Ao mesmo tempo, segmentos mais ligados à infraestrutura ou a projetos específicos continuam sustentando parte da atividade.
Esse movimento indica uma “bifurcação” do investimento: de um lado, retração nos segmentos mais cíclicos; de outro, alguma resiliência em áreas menos dependentes do ciclo econômico imediato.
Mercado doméstico: principal vetor de fraqueza
No mercado doméstico, a manutenção da política monetária contracionista continuou impactando negativamente o desempenho do setor. O ambiente de juros elevados encarece o serviço da dívida, compromete a renda, impacta negativamente os balanços empresariais, as expectativas, inibindo os investimentos produtivos. Como resultado, a receita interna recuou 12,6% no primeiro trimestre em relação ao mesmo período de 2025 e 4,8% frente ao trimestre imediatamente anterior.
Mesmo com a expectativa de manutenção da melhora nas receitas relacionadas aos setores de infraestrutura, não há sinais de reversão consistente. O fato de a recuperação do consumo aparente ter sido puxada por importados — e não pela produção local — reforça que o problema não é apenas de demanda, mas também de competitividade.
Exportações: perda de tração recente
As exportações mantêm crescimento no acumulado do ano (+7,5% em valor e +8,1% em volume), com expansão relativamente disseminada entre regiões — destaque para América do Norte (+9,5%) e Europa (+11,8%). No entanto, alguns elementos relativizam esse desempenho.
Primeiro, a valorização cambial (10,1%) reduziu a receita em reais (-5,8%), limitando o impacto positivo sobre o faturamento do setor. Segundo, parte do crescimento reflete uma base fraca no primeiro trimestre de 2025, o que distorce a leitura interanual.
Além disso, há sinais de perda de fôlego na margem: as exportações recuaram 1,2% em março frente a fevereiro e o resultado do primeiro trimestre mostra queda expressiva (-30%) em relação ao último trimestre de 2025. Isso indica que o setor externo, embora positivo no acumulado, não apresenta uma trajetória robusta o suficiente para compensar a fraqueza doméstica.
Importações: forte crescimento reforça pressão competitiva
O dado mais relevante de março está nas importações. O volume de US$ 3,1 bilhões — o maior da série histórica — e o crescimento de 21,4% no mês evidenciam que a retomada da demanda ocorreu com forte viés para bens externos.
No trimestre, as importações cresceram 4,2% e passaram a representar 49% do consumo nacional, ampliando ainda mais sua participação. Esse avanço foi liderado por segmentos ligados a obras de infraestrutura e indústria extrativa mineral.
A China segue como principal vetor desse movimento, com crescimento de 9,1% no trimestre — bem acima dos demais países. O avanço em maior escala em segmentos como logística e construção civil, indústria de transformação e agrícola mostra que o país continua ganhando espaço justamente em segmentos de mercado estratégicos.
Capacidade, pedidos e emprego: melhora marginal, mas sem reversão de tendência
O aumento da utilização da capacidade instalada para 79,9% (+1,4 p.p. frente a fevereiro) sugere alguma recomposição da produção no curto prazo. A carteira de pedidos se estabilizou em 9 semanas, embora ainda abaixo do nível de 2025.
Esses indicadores apontam para uma interrupção do processo de deterioração, mas não para uma recuperação consolidada. A carteira acumulada no ano permanece 5,2% inferior, indicando que a fraqueza das receitas deve persistir.
No mercado de trabalho, houve leve recuperação, com a criação de cerca de 1 mil vagas em março, após perdas em fevereiro. Ainda assim, o nível de emprego segue condicionado ao desempenho de setores mais sensíveis ao crédito, que continuam pressionados.
Perspectiva
Os dados de março sugerem melhora na aquisição de máquinas e equipamentos na margem. No entanto, uma análise mais ampla indica que a indústria nacional segue com desempenho negativo. Assim, 2026 caminha para ser um ano de baixo crescimento, com eventuais oscilações positivas ao longo dos meses, mas sem mudança estrutural no curto prazo.
Mantivemos nossa projeção de crescimento de 0,3% na receita líquida da indústria de máquinas e equipamentos em 2026, sustentada pelo avanço de 0,7% no mercado doméstico. Para as exportações, a expectativa de alta também foi mantida (+2,3%), mas a projeção indica impacto negativo sobre a receita total, em razão da valorização do real prevista para este ano.
